No último relatório Focus, pela primeira vez em muitas semanas, o mercado parou de elevar as expectativas de inflação para 2024 e 2025.
As expectativas agora são de inflação de IPCA de 4,37% para 2024 e 3,97% para 2025, indicando um início de ancoragem das expectativas inflacionárias. No entanto, ainda há um caminho para convergir para a meta de 3%.
O mercado também revisou para cima a projeção do PIB de 2025, mantendo uma expectativa de crescimento de 3% para 2024 e de 1,92% para o ano seguinte.
Além disso, ajustou a expectativa para a taxa Selic, com uma projeção de 11,75% ao fim deste ano, sinalizando mais duas altas de 50 pontos-base nas próximas reuniões.
Para 2025, o mercado espera o início do ciclo de cortes na Selic, mas reconhece que o ritmo será lento, projetando que a taxa encerre o ano em 10,75%.
Nos Estados Unidos, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, afirmou em entrevista que o cenário base é de mais dois cortes de 50 pontos-base nos Fed Funds, a taxa básica de juros americana.
Isso reforça a ideia de um soft landing, já que a inflação parece estar convergindo para a meta de 2% ao ano, enquanto a atividade econômica permanece robusta.
Os dados recentes sobre o mercado de trabalho mostram uma economia ainda aquecida, o que coloca em dúvida a viabilidade de cortes adicionais de juros.
O desemprego ficou abaixo do esperado, em 4,1%, e o payroll de setembro superou as previsões, com uma criação de novas vagas de emprego muito acima do estimado, o que reforça a força da economia americana.
Enquanto isso, a China continua a impulsionar sua economia com pacotes de estímulo fiscal e monetário, o que levou a um aumento dos preços do minério de ferro.
A valorização do minério impactou positivamente as ações da Vale, refletindo o benefício que o mercado de commodities pode ter com essas medidas de estímulo.
No cenário local, o Brasil teve sua nota de crédito elevada pela Moody’s de Ba2 para Ba1, com reconhecimento dos esforços em reformas e consolidação fiscal nos últimos anos.
No entanto, as agências de risco têm perdido credibilidade desde a crise do subprime, e suas avaliações, geralmente atrasadas, podem não refletir o estado atual do mercado.
Ainda assim, a elevação da nota de crédito é uma notícia positiva, especialmente se o governo utilizar essa sinalização para ajustar políticas e buscar o tão almejado grau de investimento.
Paralelamente, o Oriente Médio tem sido palco de tensões que impactam o preço do barril de petróleo, que se aproxima dos US$ 80.
Para o Brasil, a situação é relativamente positiva, considerando nossa matriz energética diversificada e a ausência de envolvimento direto nos conflitos.
Mesmo assim, o aumento do preço do petróleo e do ouro reflete o clima de incerteza e a busca por ativos seguros.
A alta dos preços foi impulsionada por temores de que Israel possa retaliar um ataque, mirando o Irã, o que poderia comprometer o trânsito de petróleo pelo Estreito de Hormuz.
Por fim, o impacto desses eventos geopolíticos eclipsou o efeito positivo da recente elevação do rating do Brasil pela Moody’s.
O Ibovespa recuou 1,38% na quinta-feira, puxado para baixo pelo déficit primário de R$ 22,4 bilhões em agosto.
Apesar de um crescimento real na arrecadação federal, os gastos continuam pressionando as contas públicas, com um déficit primário que representa 1,98% do PIB no acumulado de 12 meses até agosto.
As projeções do Tesouro indicam uma estabilização da dívida entre 81% e 82% do PIB até 2028, o que contrasta com a meta inicial de 80%.
Segundo a S&P Global Ratings, uma melhora no rating depende de ajustes fiscais significativos, que podem reduzir a necessidade de uma Selic elevada.
Apesar do nosso risco fiscal ainda pesando bastante, enxergamnos que o Brasil possui uma boa foto, mas não um bom filme.
A melhora dessa trajetória depende da condução mais austera das contas públicas, o que parece ser o calcanhar de Aquiles do governo.
No entanto, vemos uma assimetria muito positiva na relaçãop de risco x retorno nas empresas listadas em bolsa e mantemos nossa visão construtiva.
